Movimento Negro: Uma breve análise
Ao
longo da história, os negros têm carregado um forte esteriótipo social. Durante
vários anos, foram vistos como inferiores ou uma raça menos desenvolvida. A escravidão foi um exemplo concreto desse preconceito, que, mesmo com seu fim
aparente, os negros continuam sofrendo, ainda que de forma disfarçada, diversos
tipos de preconceitos e racismo em diferentes lugares e em várias áreas da
sociedade.
Diante
disso, surgiram algumas manifestações contra esse tipo de preconceito, foi
então que surgiu o Movimento Negro, apoiado nos casos de preconceitos
existentes no país, mas também nas lutas dos negros na África e nos Estados
Unidos, os quais serviram como incentivo para o combate, divulgação e ampliação
do movimento, que proporcionou um outro modo de perceber o negro e a sociedade ao longo dos
anos.
No
entanto, existem pontos a serem explicados e que merecem maior atenção, a exemplos da forma que o movimento se coloca diante do preconceito e suas ideias centrais,
caracterizando seus modos de ações e determinadas características que os membros
do movimento carregam.
Movimento Negro no Brasil
No dia 7 de julho de 1978, aconteceu em São Paulo uma concentração que foi organizada pelo “Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial”[1] que foi composto de vários grupos e que teve como objetivos principais, a luta por todo o tipo de racismo.
No dia 7 de julho de 1978, aconteceu em São Paulo uma concentração que foi organizada pelo “Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial”[1] que foi composto de vários grupos e que teve como objetivos principais, a luta por todo o tipo de racismo.
Porém,
de acordo com o Serviço Nacional de Informações (SNI) desde a década de 1970 já
era possível identificar manifestações contra o racismo e entidades com
objetivos de organizar a comunidade negra, como por exemplo, o grupo Palmares
criado em 1971; o Centro de Estudos e Arte
Negra (cecan) 1972; a Sociedade de intercâmbio Brasil-África (Sinba) originada
no Rio de Janeiro em 1974; e o Ilê Aiyê de Salvador, em 1974. Percebe-se uma
grande gama de grupos e entidades criadas na década de 1970 relacionadas com a
comunidade negra.
Em
1978, militantes desses e de outros grupos, juntaram-se para a realização de um
ato público do qual se refere o SNI. A motivação desse ato teve origem no
assassinato de um jovem negro de nome Robson Silveira da Luz, em Guaianazes, o
qual teria sido preso por ser acusado de roubar frutas em uma feira e também em
um caso de discriminação envolvendo alguns jovens negros que foram impedidos de
treinarem Vôlei no time infantil do Clube de Regatas Tietê.
A
manifestação ainda contou com a presença de Abdias Nascimento, militante ligado
ao movimento de libertação da África e que havia se exilado nos Estados Unidos,
onde foi professor em várias universidades.
Vale
destaca que essas organizações formadas na década de 1970 ainda não foram as
primeiras na história do país. Logo depois da abolição, no final do século XIX,
já era possível ver jornais circulando direcionados para o povo negro, como o
Treze de Maio, do Rio de Janeiro (1888), e O Exemplo, de Porto Alegre (1892).
Da Teoria para a Prática
Em
São Paulo a “imprensa negra paulista” nos anos de 1920 combateu a discriminação
racial, e foi a partir dela que surgiram alguns dos fundadores da Frente Negra
Brasileira que chegou a ser transformada em partido político em 1936, mas
acabou logo sendo extinta. Na década de 1940 foram fundadas várias entidades,
como a União dos Homens de Cor e o Teatro Experimental do Negro.
Alguns
desses documentos traziam informações internacionais, noticiando acontecimentos
na África e nos Estados Unidos. O Clarim d'Alvorada em São Paulo que tinha uma
seção chamada “O mundo negro” da qual era publicada traduções de artigos de
Marcus Garvey (1887-1940) que era jamaicano. O Jornal Quilombo, fundado por Abdias
do Nascimento em 1948, trazia artigos da revista Présence Africaine, publicada
em París e Dacar. Nos
anos 1960 esse intercâmbio se intensificou diante das lutas de libertação das
colônias africanas e da mobilização pelos direitos civis nos Estados Unidos.
O
fato é que o Movimento Negro Unificado (MNU) mudou a forma de luta de uma parte
dos negros com relação ao preconceito. Percebe-se que ao invés de ficarem nas
salas de debates, conferências, atividades lúdicas e esportivas, o movimento
tenta propor uma nova forma de luta, da qual, seria ir para as ruas,
confrontar, elaborar panfletos e jornais, realizando atos públicos, mudando a
forma de se vestir, criando núcleos organizados em associações de trabalhadores
nas universidades públicas e privadas.
Características
do Movimento Negro
O Movimento Negro destaca-se por sua coragem e atitudes contra a discriminação,
suas formas de manifestações e discursos. Desde a forma de pensar, até a forma
de se vestir, o Movimento Negro pretende, aparentemente, alcançar determinados objetivos, entre eles, conscientizar a sociedade, principalmente os negros, para a luta contra a discriminação sofrida por esse grupo e incentivar ações
afirmativas de combate ao racismo, como foi o exemplo das cotas para negros, as
quais seriam uma “devolução do Estado” ou uma “dívida histórica” paga ao povo
negro que foi massacrado tanto pelas correntes físicas da escravidão como das
correntes ideológicas que colocavam em dúvida a humanidade dessas pessoas.
Esses
preconceitos fizeram com que o povo negro fosse discriminado em todos os
setores da sociedade, inclusive na mídia, no trabalho, nas relações sociais em
geral, perderam direitos que deveriam ser usufruídos por todos, independente da
cor, no entanto, foram vistos como inferiores e incapazes.
A
abolição da escravidão não foi necessariamente o fim da mesma, mas apenas uma
vírgula no processo de aceitação ou não do povo negro diante das outras
pessoas. Com
o passar dos anos, várias formas de preconceito foram surgindo, com novas
“caras”, mas com o mesmo conteúdo, a discriminação ainda vigora nos dias
atuais, porém desta vez, o negro mais articulado e protegido pela lei, mesmo
que teoricamente, avança para um futuro mais esperançoso e menos preconceituoso, do qual
espera uma sociedade mais igualitária e democrática para com todos.
Algumas
características são notáveis no Movimento Negro, como por exemplo, o uso do
cabelo “Black” as músicas e as religiões de matrizes africanas, camisas com
dizeres relacionados à luta contra discriminação e a luta contra o preconceito
são algumas das características notáveis do movimento.
A
política de cotas foi uma das mais evidentes iniciativas por parte do
movimento para a inclusão dos negros em universidades, sabendo que apenas a
menor parte deles ocupavam esses centros de ensino, e essa ausência, de acordo com o movimento, está
ligado ao fato da escravidão sofrida há séculos atrás.
As
políticas de ações afirmativas seriam uma forma de resgatar uma parte dos
direitos perdidos devido à escravidão e ao forte preconceito sofrido
anteriormente.
Polêmicas em torno do Movimento
Uma
discussão importante que surge, é se o Movimento Negro visa somente à igualdade
das “raças” ou teria algo a mais nessa proposta, já que como foi dito
anteriormente, os negros foram vítimas das discriminações e preconceitos por
parte dos ditos, “brancos”.
No
entanto, agora, os negros aparecem com maior força, ainda sofrendo
preconceitos, porém, com uma maior aceitação e respeito por parte da sociedade, sendo que os negros hoje já ocupam cargos importantes, como prefeituras,
donos de empresas, professores de universidades e até presidentes de países de
primeiro mundo.
Diante
disso, estaria o Movimento Negro apenas visando uma igualdade entre todas as
pessoas ou poderia isso servir de propaganda ideológica para obter possíveis privilégios, baseado em um sentimento de incapacidade relacionado com a falta de oportunidades por parte do Estado para os negros e ao mesmo tempo, podendo ainda servir de ferramenta para compra de votos e incitação de ódio por partes de alguns partidos políticos e até do próprio movimento.
Não é difícil encontrar discursos extremistas por parte de alguns integrantes do movimento, muitos desses, culpam os brancos atuais pela pobreza e pouca oportunidade no mercado de trabalho e instituições de ensino superior, promovendo uma separação entre brancos e negros, causando divisão ou um novo Aparthaid, dessa forma, ao invés de diminuir, podem acabar aumentando ainda mais o preconceito na sociedade. É preciso salientar que as pessoas vivas neste momento não são as mesmas que promoveram leis racistas e apoiaram a escravidão no passado, embora ainda exista preconceito e racismo, não se pode negar o avanço que a sociedade obteve durante esses anos em se tratando da questão racial. Sendo assim, esses discursos separatistas acabam sendo desnecessários e nocivos a todos, incluindo aos próprios negros.
Cotas Raciais
As
cotas raciais causaram e continuam causando muita polêmica entre os
intelectuais e a sociedade em geral. Ao ponto que se discute um possível
benefício que os negros e afro descendentes estariam usufruindo, e se de fato,
os negros realmente precisariam das cotas para poder ter acesso ao ensino superior,
tendo em consideração o uso de alguns direitos que foram “aprisionados” na
época da escravidão, como o direito de estudar em universidades, sabendo que
antes o negro servia apenas como trabalhador escravo. Por outro lado, esses tipos de medidas parecem que reforçar ainda mais o preconceito, visto que as cotas acabam confirmando a incapacidade do negro em alcançar o ensino superior e consequentemente uma melhor qualidade de vida, precisando dessa forma, de uma "ajudinha" do Estado para conseguirem oportunidades melhores em suas vidas. Essa foi e ainda continua
sendo uma das principais discussões levantadas nos debates acerca desse
assunto.
Outro
fato que também merece ser discutido são algumas ideologias do movimento negro,
como por exemplo, o uso do cabelo “Black” por parte de alguns ou grande parte
dos integrantes do movimento e suas filiações com religiões afrodescendentes.
Os
integrantes do movimento afirmam que o uso do cabelo “Black” é uma auto
identificação do negro com suas origens, seria uma forma representativa de
resgatar seu passado “roubado” pelas correntes do preconceito e ao mesmo tempo,
uma forma de assumir sua condição de negro sem necessariamente copiar o padrão
da beleza branca, por isso, muitos integrantes e simpatizantes das ideias deste
movimento não alisam os cabelos e deixam de frequentar salões de beleza, pois,
segundo a ideologia do movimento, o negro não precisaria frequentar esses
espaços nem alisar os cabelos porque isso seria uma forma de reproduzir o
padrão branco racista e consequentemente negar sua beleza negra natural, que no
caso seria o cabelo crespo.
Da mesma forma, comportamentos
semelhantes se aplicam para a prática das religiões de matrizes africanas por
parte dos membros do Movimento Negro. Desta vez, para os integrantes do
movimento, a justificativa seria que as religiões de matrizes africanas em sua
maioria seriam oriundas de negros africanos ou da cultura africana e que
deveriam ser também adotadas pelos negros de outros países ou localidades a fim
de se unificarem e criarem um laço único de identificação e solidariedade entre
os negros espalhados pelo mundo. Dessa forma, estariam negando religiões ditas
como europeias, que carregam, segundo o movimento, uma série de preconceitos e
padrões elitizados que, por sua vez, acabam influenciando a sociedade, em
especial os negros, a se comportarem como “brancos”[2]
e consequentemente negar sua origem e cultura negra.
Isso explica em parte, a grande
quantidade de membros do Movimento Negro, dentro de religiões de matrizes
africanas.
Porém,
a questão que se levanta, é que, se fazendo uso do cabelo “Black” e
das religiões de matrizes africanas, o negro estaria de fato se auto identificando
como negro. Torna-se necessário fazer uma reflexão do que realmente seria ser
negro na sociedade, porque sabendo que os negros hoje possuem mais direitos do
que no passado, a pergunta que se faz é que: Trazer de volta certos costumes e
crenças do passado, seria a maneira correta de lutar por igualdade?
Estaria
o negro condicionado somente a religião afro e ao cabelo “Black”? Seria apenas
isso o necessário para o negro ser “negro” na sociedade atual?
Esses tipos de atitudes não seriam
formas de preconceitos por não aceitarem outras formas de comportamentos que
não estejam relacionados com a cultura africana?
Será que o Movimento Negro não estaria
limitando a liberdade e sendo preconceituoso ao limitar e tentar controlar os
gostos individuais dos outros negros, impondo-lhes comportamentos e práticas de
determinados locais como se fossem universais?
As ações sociais, o comportamento perante
a sociedade, a conquista da liberdade e de cargos importantes que antes eram
dominados por “brancos” não seria algo mais concreto a se visar do ponto de
vista do Movimento Negro?
Essas
são questões importantes e que irão ainda perpetuar durante certo tempo,
contudo, tendo em vista que uma parte dos direitos está sendo conquistada,
embora o preconceito ainda caminhe pelos órgãos competentes, pelas ruas e pelas
mentes da sociedade, o negro pode e já demonstrou ter capacidade de conseguir
alcançar lugares que jamais foram imaginados antes e que hoje são tão reais
quanto o sangue derramado por outros negros no passado.
Conclusão
As
lutas travadas pelos negros na África e nos Estados Unidos serviram como
combustível para o movimento avançar nas lutas contra a discriminação e agregar
mais membros. Além do combate pelo fim do preconceito, o movimento negro no
Brasil, reivindicou também a valorização do negro na sociedade, e oportunidades
no mercado de trabalho.
Algumas
polêmicas também fizeram e ainda fazem parte do movimento, suas crenças,
ideologias, e o estilo de vida adotado e a postura mostrada perante a
sociedade, trazem em algumas pessoas, uma desconfiança, o que faz com que
muitos negros não sintam desejo de entrar no movimento negro.
Essa
aceitação e não aceitação se tornam características do movimento, e que irá
trazer debates importantes a cerca da valorização e identidade do povo negro
perante a sociedade.
Referências
bibliográficas
ALONSO, Angela. As Teorias dos Movimentos Sociais: Um Balanço do Debate. Lua Nova,
São Paulo, 76: 49-86, 2009.
BARROS,
Cesar Mangolin de. O movimento negro ao
longo do século XX: Notas históricas e alguns desafios atuais.
Outras referências
Notas de rodapé
[1] Depois de algum tempo, o movimento teve
várias vertentes e não se manteve sempre unificado, houve várias divisões e
saídas de membros do movimento por não aceitarem ou não concordarem com algumas
diretrizes tomadas dentro do movimento, o que facilitou o surgimento de outros
segmentos originados do próprio movimento negro unificado.
[2] Branco no sentido europeu, seguir um
determinado comportamento padrão. A disseminação da cultura europeia teria
influenciado a sociedade a se comportar e a enxergar outras culturas como
inferiores.






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