PROTESTANTES NO BRASIL


Algumas décadas depois da morte de Martinho Lutero, (1483-1546), suas ideias chegaram ao Brasil, primeiro com a chamada França Antártica – colônia francesa que se estabeleceu no Rio de Janeiro no século XVI existiu entre 1555 e 1560, posteriormente os holandeses em 1630 a 1654 que se encontravam no Nordeste brasileiro também proclamavam a fé protestante, e diferentemente da França Antártica, conseguiram maior êxito, fundando cerca de vinte e duas igrejas locais e congregações em Pernambuco e  araíba com a chamada Companhia das Índias Ocidentais que ainda incluía catequização dos índios, traduções da bíblia e até mesmo pastores indígenas. Muitos anos se passaram até os holandeses serem expulsos do país, e o Brasil voltava a ser predominantemente católico detendo o monopólio do ensinamento religioso até o século XIX. (GONÇALVES, 2009). Os protestantes tinham que disputar terreno com a religião oficial, a Igreja Católica, que detinha a autoridade religiosa no país, contudo, foi a partir desse momento que os cultos protestantes começaram a emergir gradativamente em solo brasileiro.

Os líderes católicos consideravam os protestantes como a “heresia invasora” que buscava usufruir das riquezas e dos lucros que eram exclusivos da metrópole portuguesa. A Igreja Católica tinha o monopólio pastoral, as pessoas compartilhavam do catolicismo no convívio social que passava a ser fonte de identidade definida, ao contrário do protestantismo que era visto com desconfiança e incerteza no meio social, uma religião estrangeira que naquele momento não despertava sentimento de pertencimento entre os brasileiros. (SILVA, 2010).

Apenas no século XIX o cenário religioso brasileiro obteve mudanças significativas. Alterações político-econômicas e sociais como a transferência da família real portuguesa para o Brasil em 1808, interferiu no quadro religioso brasileiro. A Inglaterra com uma nação protestante conseguiu alguns privilégios de cunho religioso, embora essas vantagens representariam ameaça a hegemonia católica eles foram obtidos decorrentes do poder econômico que a Inglaterra tinha sobre Portugal.
O tratado de Comércio e Navegação assinado em 1810 garantia entrada de produtos ingleses nos portos brasileiros e, também, a liberdade de consciência e culto, permitindo igrejas protestantes, mas sem buscar a conversão dos católicos.

No ano seguinte, a primeira igreja Anglicana já se instalava no Brasil mais precisamente no Rio de Janeiro. (ASSIS, 2012).
Em 1824, graças a nova constituição, o catolicismo foi reafirmado como religião oficial do Império, mas reconhecia outras crenças cristãs desde que não houvesse tentativa de conversão do público católico nem ofensas a religião católica.

Percebe-se nesse contexto que o protestantismo já nasce em meio a disputas religiosas, primeiro com a reforma protestante que rompe com os dogmas católicos e consequentemente estendendo essa disputa para outros territórios como o Brasil, depois entre os próprios protestantes em uma disputa interna entre as igrejas
evangélicas que será melhor evidenciado com a chegada dos pentecostais.

Imigrantes alemães que entravam no país no século XIX eram em grande parte, protestantes, e iniciaram instalações religiosas, porém, somente em 1864 foram oficializadas com assistências de pastores vindos da Alemanha e permanecendo principalmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil.

Os protestantes de missão eram aqueles que prestavam serviços religiosos aos ingleses e alemães no país sem necessariamente possuir caráter proselitista. É interessante frisar que esses protestantes necessitaram construir cemitérios para uso próprio devido as necrópoles serem administradas pela Igreja Católica, e com isso, não permitam a sepultamento de não católicos nesses lugares. Diante disso, foi construído o cemitério Britânico da Bahia em 1814 que acomodou aos luteranos que também residiam na província baiana. (SILVA, 2010).
Segundo o professor Angelo Adriano Faria de Assis, a imigração alemã trouxe as comunidades luteranas em Nova Friburgo no Rio de Janeiro, a forte imigração no Sul também ocasionou o urgimento de outras comunidades protestantes. As igrejas luteranas eram simples sem sinos, torres ou outra dentificação, foram construídas pelos esforços dos colonos. Nessa mesma época ainda se formaram também agrupamentos suecos, suíças, holandesas, escocesas, ingleses e norte-americanos formando várias vertentes de cultos reformados no Brasil. Entre esses, destaca-se a influência dos norte-americanos, depois da Guerra Civil nos Estados Unidos (1861-1865), muitos protestantes vieram em busca de terra e de refúgio, incitavam e financiavam missões, viam no Brasil terreno fértil para ganhar adeptos. Percebe-se que a prática missionária que está vinculada na história do protestantismo permanece até os dias atuais por meio das igrejas evangélicas.

As igrejas protestantes conseguiram despertar nas pessoas o sentimento de melhoria como demonstra o trecho abaixo:
Essas Igrejas contaram com a simpatia dos que viam no protestantismo sinais do progresso norte-americano e dos preceitos republicanos, ao mesmo tempo em que viam o atraso do Brasil e da monarquia como influência do catolicismo. (ANPUH, 2012, p.25)
Os protestantes se espalharam pelo Brasil, indo nas cidades e nos campos, distribuíam bíblias, criaram escolas, hospitais, obras assistenciais, houve transformações também na educação como jardins de infância, salas exclusivas para aulas práticas, novos conteúdos e disciplinas.

As tendências missionárias entre os protestantes fizeram com que as dificuldades colocadas pela igreja católica fossem minimizadas, no entanto, durante os séculos, a evangelização adquiriu diferentes formas, mudando de acordo com as instalações de novas igrejas. (ALMEIDA, 2009.)
Semelhantemente aos movimentos citados anteriormente, surgidos logo após a reforma, o pentecostalismo também trouxe um tipo de reinvindicação, a qual contestava os padrões dogmáticos estabelecidos pelos protestantes históricos. As igrejas históricas como oriundas direto da Reforma Protestante, visava um culto racional, voltado para a formalidade, suprimindo qualquer manifestação mais exótica do sagrado como a glossolalia e a possessão. Decorrente a isso, discordâncias teológicas e doutrinárias entre os fiéis causaram uma cisão que ajudaram a dar início a instalações de igrejas pentecostais.

O século XX ficou marcado pela proliferação de múltiplos grupos religiosos, foi um momento propício para o protestantismo, apesar de ainda ser bastante católica, essa expansão religiosa fez com que a população brasileira professasse menos a religião católica sem necessariamente perder a religiosidade. O pentecostalismo surgiu no começo deste século e ajudou a incrementar o cenário das igrejas cristãs. (ALMEIDA, 2009).

Segundo Romeiro (2005), o pentecostalismo como é conhecido atualmente, surgiu nos Estados Unidos em 1900 mais precisamente em Topeka, Kansas, onde um pregador de nome Charles Parham possuía uma escola bíblica denominada de Betel e tinha o costume de reunir alguns alunos para estudarem a bíblia acerca do batismo com o Espírito Santo.
É interessante destacar que Parham mantinha contato com o “Movimento da santidade” que era um grupo que compartilhava de alguns ensinamentos do metodismo de João Wesley, como a “inteira santificação” e a “perfeição cristã”.

Contudo, foi em 1906, na cidade de Los Angeles que o movimento pentecostal atingiu seu ápice com um conjunto de manifestações de conversões, profecias e glossolalias que foram chamadas de avivamento pelos seguidores do grupo lideradas pelo pregador William Seymour que era aluno da escola de Parham. A partir daquele momento, o pentecostalismo passou a ser difundido em várias cidades norte-americanas e mais tarde para outras partes do mundo, inclusive o Brasil. (ROMEIRO, 2005).
Cabe realçar como os movimentos surgidos anteriormente deram raízes para o surgimento do pentecostalismo, não apenas as características doutrinárias como a legalidade e incentivo para as manifestações espirituais como a glossolalia, acrescenta-se a isso, igualmente, a forma como esses movimentos foram formados, ou seja, a contestação e a contrariedade fazem parte do protestantismo e propriamente do movimento pentecostal, visto que desde os movimentos como pietismo, puritanismo, que foi um movimento na Inglaterra que protestava contra a inserção de doutrinas católicas dentro da igreja reformada, buscando dessa forma, uma “purificação” dos protestantes frente aos resquícios do ritualismo e liturgia romana (FERREIRA, 1999), além do Montanismo e o Metodismo que fizeram com que uma consciência carismática fosse despertada dentro dos fiéis incentivando-os a organizar um movimento, embora protestante em sua origem, perpetuava doutrinas, interpretações bíblicas, e pregações diferentes dos chamados reformados que seguiam os ideais da Reforma Protestante. 

Os pentecostais não somente desejavam maior liberdade para exercer suas manifestações espirituais como
criaram uma nova vertente, um novo jeito de proclamar a mensagem divina.
O termo pentecostal é o nome de uma festa religiosa judaica. Os seguidores do movimento se baseiam principalmente no livro bíblico de Atos dos 5 Apóstolos 2:1;6. Após a morte e ressureição de Jesus, no dia da festa de pentecostes, o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos que naquele momento falaram em outras línguas. Por isso, o nome pentecostalismo e a importância que dão ao batismo com o Espírito Santo, pois, seria quando o Espírito Santo passa a viver “dentro” da pessoa tendo o “falar em línguas” sua principal evidência externa. (MATOS, 2006).

Movidos por um forte desejo de expansionismo, os pentecostais se espalharam difundindo as suas crenças em outras cidades e países, foi dessa forma, segundo Paulo Romeiro, que os pentecostais chegaram em território brasileiro, primeiro com Louis Francescon de origem italiana que apesar de pertencer e ser um dos fundadores da Igreja Presbiteriana Italiana em Chicago passou a ter contato com o movimento pentecostal norte-americano em Los Angeles onde recebeu uma “revelação” segundo a qual, deveria evangelizar o povo italiano pelo mundo junto com seu irmão G.Lombardi. A partir dessa experiência, passou a crer no batismo do Espírito Santo, em 1910 chegou em São Paulo e ao pregar a mensagem pentecostal na Igreja Presbiteriana acabou provocando uma divisão entre os presbiterianos visto que alguns creram na mensagem, mas muitos resistiram. Porém, com a adesão de novos adeptos, criou a Congregação Cristã no Brasil que foi a primeira igreja pentecostal em território brasileiro.


Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Ronaldo. A expansão pentecostal: circulação e flexibilidade. In: TEIXEIRA, F.; MENEZES, R. (Org.). As religiões no Brasil: continuidades e rupturas. Petrópolis: Vozes, 2006. p. 111-122.
Disponível em: 
http://www.fflch.usp.br/centrodametropole/antigo/v1/pdf/2007/ronaldo_pentecostalismo.pdf

ANPUH. Revista da Biblioteca Nacional de História. Ano 8. N. 87. Dezembro. 2012.

MATOS, Alderi Souza de. O movimento pentecostal: reflexões
a propósito do seu primeiro centenário. FIDES REFORMATA XI, Nº 2. 2006.
Disponível em: https://numen.ufjf.emnuvens.com.br/numen/article/viewFile/855/740

ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a graça. Esperanças e frustrações no Brasil neopentecostal. São Paulo: Mundo Cristão, 2005.


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