IGREJAS MODERNAS


Diante de igrejas “modernizadas” com cultos que promovem verdadeiros shows musicais, e pregações eloquentes, além das igrejas neopentecostais que por sua vez promovem cultos com muitos testemunhos de pessoas que alcançaram sucesso financeiro e a pregação baseada na teologia da prosperidade que é um dos “carros chefes” da teologia neopentecostal. O fiel então, pode escolher entre as diversas igrejas espalhadas, a que mais se identificar para firmar compromisso de frequentar os cultos diariamente, ou mesmo pode optar por ir a um determinado culto de acordo com o momento emocional ou financeiro em que esteja vivenciando.

O autor Peagle (2008), enfatiza de maneira objetiva esse contexto do trânsito religioso em que o fiel se encontra: 
"Um fiel pode optar por um pregador eloqüente, templos grandes e um cultos-show, enquanto outro pode optar por um culto litúrgico, a ênfase do discurso na doutrina e em hinos executados num piano. Pode-se ainda mesclar diferentes e inúmeros elementos que, combinados entre si, permitem que o fiel se aproprie do discurso de formas diversas e individualizadas, possibilitando que num mesmo espaço religioso ocorram diferentes manifestações da experiência religiosa. Em suma, o fiel pode, mesmo que sujeito aos mesmos elementos religiosos e ao discurso oficial de uma denominação religiosa, ter uma recepção diferente da mensagem para a qual o emissor se propõe, devido aos fatores culturais, espaciais, sociais e até pessoais". (2008, p.5).

De acordo com o autor, os neopentecostais configuram exemplos práticos de como a lógica do consumo tem se aplicado nas igrejas fomentando dessa forma o trânsito religioso. De acordo com a perspectiva do autor, as igrejas neopentecostais atraem os fiéis através da mistura de elementos religiosos. 
Os cultos em que há possessões, objetos ungidos/consagrados como velas, chaves, óleo ungido, rosas, além de campanhas para alcançar a prosperidade financeiras podem ser transformados em elementos de atração de membros para essas denominações. Essas características são bastante comuns em igrejas neopentecostais que conseguem organizar os cultos de acordo com o dia da semana, em outras palavras, para cada dia da semana é atribuído um culto específico. 


Nas igrejas neopentecostais é comum encontrar diversos tipos de cultos ou reuniões como o culto da família, culto dos empresários, culto da libertação e até culto do amor, mais especificamente, a chamada terapia do amor que seria uma reunião para pessoas que desejam encontrar seu par ideal ou para casais que querem aprender a dar continuidade em seus relacionamentos. (ALMEIDA, 2009).

A diversidade de cultos e de igrejas fez com que os grupos protestantes, aqueles originados da Reforma, estagnassem em termos quantitativos de membros, tendo um crescimento vegetativo e perdendo fiéis igualmente ao catolicismo, esse último vem perdendo fiéis para os pentecostais, tendo que fazer a renovação carismática como forma de diminuir o avanço pentecostal e a consequente perda de fiéis. (COELHO, 2009).

É interessante salientar que alguns princípios originais da Reforma Protestante como o estudo e a leitura dos textos sagrados, foram perdendo espaço, em contrapartida, o entretenimento ganhou bastante destaque no meio evangélico, visto a quantidade de cds, dvds, roupas, que são vendidos e consumidos pelos próprios evangélicos e o aumento de livros ligados a teologia da prosperidade.

Parece existir um tipo de tensão entre os grupos evangélicos e protestantes de maneira que pode haver uma mescla entre eles, inserindo e exportando particularidades entre si como aponta o autor:
"Forma-se uma espécie de teoria do dominó, pois protestantes sofrem uma pressão  de  pentecostalizarem  e pentecostais  para  se neopentecostalizarem, dentro dessa lógica de mercado, pois são os neopentecostais que defendem a teologia da prosperidade, aliando assim, com uma maciça participação televisiva, ao transformar o culto em espetáculo". (PEAGLE, 2008, p. 7). 

Dentro dessa disputa interna entre evangélicos, os neopentecostais utilizam-se de uma abertura maior quando se trata de adesão de membros, pois, como dão ênfase no bem-estar e na prosperidade financeira de seus membros, diferente dos pentecostais e históricos que priorizam o aspecto comportamental de seus seguidores e impõem algumas restrições acerca das vestimentas e a maneira de se relacionar com os não crentes.

Os neopentecostais, fazem questão de tornar mais simplificado o procedimento de adesão das pessoas à instituição, fazendo poucas restrições e tentando ser menos parecidos com as pentecostais (CERVEIRA, 2008). Dessa forma acabam oferecendo uma opção diferenciada para um público que busca algo fora do contexto pentecostal, o trecho abaixo aponta essa característica:
"as igrejas neopentecostais de maior visibilidade são exclusivistas em seu discurso, mas altamente sincréticas em sua prática. Assim, a mobilidade é facilitada. Não tem formalidades para entrar, nem há exigência de compromisso com a vida comunitária. São, antes, oferecidos serviços e eventos religiosos que atraem os fiéis para as igrejas neopentecostais, que ficam abertas e ativas quase que 24 horas por dia". (BARTZ, 2012, p.3).
Como aponta o autor, o funcionamento constante das igrejas neopentecostais como a Igreja Universal, é um dos diferenciais desse grupo para conseguir atrair fiéis para os seus templos, além de utilizar frases de impacto como o slogan “Pare de sofrer” que fica estampada na fachada de seus templos, dando a entender a capacidade da igreja em resolver problemas de forma instantânea. Diferente dos pentecostais que realizam cultos geralmente a noite, os neopentecostais fazem cultos em diversos horários do dia facilitando o alcance de várias pessoas que podem assistir as reuniões em horários alternados sem precisar esperar chegar a noite para ir à igreja.

Não queremos com isso, desacreditar os cultos, sabemos a importância da fé e da união entre os irmãos. Os textos que você encontra aqui, não são para transforma-lo(a) em cético, muito pelo contrário, sabemos que as igrejas passaram e estão passando por mudanças, e cabe a nós cristãos, entender essas mudanças. Saber compreender o local que você congrega é importante para que você saiba absorver as coisas boas e proveitosas encontradas ali e deixar de lado o que não é bom.

Como diria o apóstolo Paulo: "Examinai tudo, retende o bem". 


Referências bibliográficas

ALMEIDA, Ronaldo. A expansão pentecostal: circulação e flexibilidade. In: TEIXEIRA, F.; MENEZES, R. (Org.). As religiões no Brasil: continuidades e rupturas. Petrópolis: Vozes, 2006. p. 111-122.
Disponível em:
http://www.fflch.usp.br/centrodametropole/antigo/v1/pdf/2007/ronaldo_pentecostalismo.pdf
Acessado em: 27/10/2016.

BARTZ, Alessandro. Trânsito religioso no Brasil: Mudanças e tendências contemporâneas. Anais do Congresso Internacional da Faculdades EST. São Leopoldo: EST, v. 1, 2012. 
Disponível em: http://anais.est.edu.br/index.php/congresso/article/view/27.
Acessado em: 23/09/2016

CERVEIRA, Sandro Amadeu. Protestantismo Tupiniquim, Modernidade e Democracia: limites e tensões da(s) identidade(s) evangélica(s) no
Brasil contemporâneo. Revistas de Estudos da Religião. Março / 2008.
Disponível em: www.pucsp.br/rever/rv1_2008/t_cerveira.pdf.
Acessado em: 23/09/2016.

COELHO, Lázara Divina. Trânsito religioso: Uma revisão exploratória do fenômeno brasileiro. Vox Faifae: Revista de Ciências Humanas e Letras das Faculdades Integradas da Fama Vol. 1, No 1 (2009) ISSN 2176-8986.
Disponível em: 
http://www.faifa.edu.br/revista/index.php/voxfaifae/article/viewArticle/6
Acessado em: 23/09/2016.

PAEGLE, Eduardo Guilherme de Moura. A “Mcdonaldização” da fé
- um estudo sobre os evangélicos brasileiros. Revista Eletrônica do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Protestantismo (NEPP) da Escola Superior de Teologia Volume 17, set.-dez. de 2008 – ISSN 1678 6408. 
Disponível em:
Acessado em: 23/09/2016


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